Um país que perdeu a capacidade de se indignar: Por Adilson Faxina*

Um país que perdeu a capacidade de se indignar
Vivemos uma época em que a roubalheira deixou de nos escandalizar. Escândalos bilionários, supersalários, privilégios e fraudes passaram a integrar o cotidiano brasileiro como algo quase normal. O que deveria provocar revolta virou apenas mais uma manchete.
Enquanto milhões enfrentam filas na saúde, escolas precárias, insegurança e dificuldades para sobreviver, parte da elite política vive cercada de benefícios financiados justamente pelo sofrimento da população. Falta dinheiro para remédios, saneamento e educação, mas nunca falta para gabinetes luxuosos, privilégios e esquemas de corrupção.
O mais perverso é a hipocrisia.
Há quem demonize pobres e critique programas sociais, como se os miseráveis fossem culpados pela crise do país. Falam em meritocracia, mas silenciam diante dos bilhões drenados pela corrupção e pelos privilégios de uma classe política que vive distante da realidade da população.
Talvez por isso tanta gente tenha perdido a confiança nos políticos — e, em muitos casos, também na Justiça. A sensação de impunidade destrói a credibilidade das instituições.
Nesse cenário, o voto nulo passou a ser tratado quase como crime moral. Criou-se a ideia de que ele beneficia este ou aquele partido, como se o cidadão fosse obrigado a escolher entre candidatos nos quais não acredita.
Mas o voto nulo também é um direito democrático. Para muitos, não é omissão. É protesto.
Nem todo eleitor que vota nulo é alienado. Muitas vezes, é apenas alguém cansado de escolher entre projetos igualmente distantes dos interesses reais da população.
O problema não está em quem rejeita candidatos. Está na incapacidade dos partidos de apresentar lideranças honestas, coerentes e comprometidas com o país.
Talvez o mais assustador no Brasil já não seja a corrupção, mas a normalização dela. Chegamos ao ponto em que muitos não perguntam mais se um político roubou. Perguntam apenas de que lado ele está.
E uma sociedade começa a perder sua dignidade quando deixa de se indignar com o roubo do dinheiro público — dinheiro que desaparece da merenda escolar, dos hospitais, da segurança e do futuro de milhões de brasileiros honestos.
Um país não se destrói apenas pela ação dos ladrões.
Ele se destrói quando a sociedade passa a aceitá-los, defendê-los e elegê-los como representantes legítimos.
Texto do jornalista Adilson Faxina
Revisão: IA
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