Detergente, Política e Alienação: Quando o Absurdo Vira Prioridade Nacional

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A polêmica criada em torno do detergente YPÊ, envolvendo uma suposta contaminação em um determinado lote — o lote com final 1 — transformou-se num verdadeiro “disse me disse” e num dos maniqueísmos mais grotescos já vistos nas redes sociais. O debate envolve desde os mais simplórios até os “ditos” astutos, incluindo figuras políticas e seus seguidores mais apaixonados.

É inacreditável observar o nível das publicações que circulam nas redes: pessoas afirmando, com a maior naturalidade do mundo, que ingerem detergente misturado com o que lhes convém, como se isso fosse demonstração de inteligência, coragem ou fidelidade política. Ao menos é o que apontam videos que circulam nas redes sociais, no Instagram e Facebook, mostrando pessoas que se identificam como apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro consumindo ou simulando o consumo de detergente da marca.

Até agora, ainda não vi ninguém dizendo que misturou detergente YPÊ com pinga, cachaça ou aguardente, embora, sinceramente, eu não duvido que isso ainda possa aconter. Acredito que basta uma “personalidade” sugerir a ideia para que uma legião de alienados resolva transformar o absurdo em desafio coletivo.

A liberdade expressão é intrínseca a todos e todas. Portanto, se alguém decide encher o fiofó de cachaça ou detergente, o problema pertence exclusivamente à própria pessoa.

Mas há um detalhe que ajuda a explicar parte da histeria criada em torno da marca: segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o vice-presidente de operações da empresa YPÊ, Jorge Eduardo Beira, doou R$ 500 mil à campanha de Jair Bolsonaro. Além disso, outros três integrantes da família contribuíram com mais R$ 1 milhão.

Michelle Bolsonaro saiu publicamente em defesa da empresa, o que ajudou a incendiar ainda mais a discussão. E talvez seja justamente aí que esteja o aspecto mais deprimente dessa história: enquanto parcela da sociedade passa dias discutindo detergente como se fosse pauta de interesse nacional, temas realmente importantes seguem abandonados como meio ambiente, segurança pública, saúde, trabalho, educação e demais políticas estruturais capazes de melhorar concretamente a vida da população.

O episódio revela o grau de alienação e empobrecimento do debate público. Uma parcela significativa da sociedade já não consegue distinguir o essencial do ridículo, nem perceber o óbvio diante dos próprios olhos.

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